Moras dentro do meu coração –
Vila Maria eu sou – um caso de amor e devoção
(O Grêmio Recreativo Cultural
Social Escola de Samba Unidos de Vila Maria)
A Vila Maria é um bairro da Zona
Norte de São Paulo bastante antigo. Tendo seus primeiros terrenos
vendidos em meados de 1856, foi oficializada em 17 de janeiro de 1917,
pela Cia. Paulista de Terrenos. Famoso reduto janista (Jânio Quadros,
ex-presidente do Brasil e ex-prefeito de São Paulo tinha por costume
iniciar seus discursos com um sonoro “Meu povo de Vila Maria”), a Vila
Maria é hoje um bairro residencial, de classe média, que mantém seu
próprio comércio e algumas indústrias. De acordo com o site oficial do
bairro, o www.bairrodevilamaria.com.br, a Vila Maria conta, de
acordo com uma estatística do ano 2000, com 105.086 habitantes.
Lá pelos idos de 1950, alguns
amigos que moravam na Vila Maria e imediações (entre eles podemos citar
Benedito Nascimento, o “Dito Caipira”, João Brasil, Emanuel, José
Penteado, Zézimo da Vila Maria, Valdete Brandão, Mané Sabino e Zé
Caxambu) costumavam se reunir para brincar o carnaval desfilando pelas
ruas do bairro, saindo da Vila Munhoz e contagiando a todos até a Vista
Alegre. Desta brincadeira, surgiu, em 1950, a escola de samba Unidos do
Morro da Vila Maria (nome que permaneceria até 1971), que só foi
oficializada em 10.01.1954.
Conta Benedito que, em 1953, eles compraram
alguns instrumentos e realizaram um “vai quem quer” até o centro da
cidade. Segundo o então presidente da escola, muita gente os acompanhou.
Em conseqüência disso, no ano seguinte, a escola foi regularizada e, já
no primeiro concurso do qual participou, ficou em segundo lugar.
Inicialmente, como as demais
escolas da cidade, a Vila não desfilava com alas formalizadas. A escola
saia pelas ruas (antes da oficialização do desfile pela prefeitura
podemos citar como pontos de passagem a Avenida Celso Garcia, no Brás, e
a Avenida São João, no Centro) com sua animada bateria, o baliza Zé
Caxambu e Claudete, uma passista que “escandalizava” por sair de maiô
frente à bateria.
Também não havia sede. A sede
“improvisada” era a casa de Mane Sabino. O dinheiro também era pouco,
sendo obtido através de listas e do livro de ouro (livro que era passado
pelo comerciantes da região e que, ao ser assinado, “obrigava” o
assinante a fazer uma doação em dinheiro para a escola). Além disso, os
próprios associados colaboravam com pequenas quantias para a compra de
tecidos para as fantasias.
Uma figura importante na
história da escola é João Franco, o Xangô da Vila Maria que foi uns dos
primeiros componentes da escola. Ator, cantor e compositor, Xangô foi
também um dos primeiros artistas a aderir ao movimento negro.
Para
termos uma idéia da importância de Xangô para o samba paulista, tomamos
um samba de Leci Brandão (uma sambista carioca) em que ela canta, em
resposta a um comentário de Vinícius de Moraes de que São Paulo seria o
“túmulo do samba”:O poeta falou / que São Paulo
enterrou o samba / que não tinha gente bamba / e não entendi porquê /
Fui à Barra Funda, fui lá no Bixiga, fui lá na Nenê / me perdoa poeta,
mas discordo de você / Lavapés primeira escola / Cavaquinho e pandeiro /
Nenê da Vila Matilde / De primeiro de janeiro / Seu Inocêncio Tobias /
Pé Rachado e Carlão / Xangô da Vila Maria / Dona Sinhá, a tradição
(trecho da música “Me perdoa poeta”)Nesta canção, Leci Brandão
busca, por meio de exemplos dos maiores nomes do samba paulista,
explicar o porquê de sua discordância junto ao poeta. E Xangô é um dos
nomes citados – o que, podemos pensar, lhe credencia como “bamba” do
samba e, conseqüentemente, sua escola leva também este tipo de
reconhecimento. Em decorrência deste fato, o de já ser conhecido do
grande público, “sua” escola atingiu notoriedade desde muito cedo. Já em
1955 anunciava um jornal paulistano:Xangô (que conhecemos na filmagem de
“Sinhá Moça” no tempo em que trabalhávamos na “Vera Cruz”) tem uma das
melhores escolas de samba da cidade. “Unidos do Morro” é o seu nome.
São
rapazes e moças de cor (o samba tem cor, cor negra) que sabem dançar,
cantar, ritmar o samba, dar-lhe corpo, frenesi, calor maior. “Unidos do
Morro” vem atuando na TV Paulista e no Parque Ibirapuera, em animadas
folias pré-carnavalescas. (1955, arquivo pessoal de Xangô)
Esta fala traz-nos uma outra
característica, levantada por alguns dos componentes mais antigos:
durante muito tempo, apenas negros faziam parte da escola. Alguns dizem
que isso acontecia porque os brancos não queriam misturar-se a este tipo
de folia; outros pregam que era preconceito por parte dos negros,
mesmo... Polêmicas raciais à parte, a Vila Maria continuou a
desenvolver-se. No início, com todas as dificuldades pelas quais passou
a maioria das escolas. Na falta de verbas para a preparação do Carnaval,
os próprios associados acabavam por investir seu dinheiro na compra de
tecidos para as fantasias.
Isso sem falar que a escola não tinha uma
sede. Improvisou-se, então, uma “sede”, localizada na casa do Mané
Sabino – se, com quadras e ateliês as escolas têm vários problemas de
espaço com a aproximação do Carnaval, imagine, então, nesta época...
Foram duros os primeiros anos de existência da escola.
O primeiro grande título da
história da Vila Maria veio em 1968, quando, através de um enredo que
falava sobre Villa Lobos (desfilando com 300 componentes e mais uma
escola de samba mirim), a escola conquistou o primeiro lugar do segundo
grupo. Ainda na década de 1960, a Vila Maria foi premiada pelo prefeito
Faria Lima com o Apito de ouro, prêmio concedido às melhores
baterias das escolas.
Na
ocasião, o Mestre responsável pela bateria era Mestre Batucada, outro
grande nome do samba paulistano.Em 1976, já com 600 componentes,
e sob a presidência de Benedito Nascimento, a escola ganha uma nova
quadra, e renova-se de esperança. Porém, o trajeto não foi muito feliz.
Uma sucessão de diretorias não muito dedicadas à escola fez com que esta
caísse no esquecimento – apesar de ter participado de todos os
carnavais. Apenas na década de 1990, quando o hoje presidente de honra
da Velha Guarda, Vadinho, e alguns amigos resolvem assumir a escola é
que a Vila (como é informalmente chamada pelos seus componentes) voltou
a obter bons resultados. Aliás, a este respeito há uma história
interessante. Conta ele que o registro da escola foi conseguido na
última hora, ou seja, perto do Carnaval.

Oficializada, a escola era
obrigada a desfilar, ou então perderia já este registro
recém-conquistado. A solução, então, foi apelar para meios “caseiros”:
os próprios membros da escola começaram a confeccionar suas fantasias,
em um galpão velho, cheio de ratos. Vadinho nos conta que, às vezes, ao
pegar-se uma fantasia (muitas vezes grampeada, já que não havia tempo
suficiente para costurá-la), vinha junto, como presente, um belo
ratinho...
Em 1998, com o enredo “Uma
viagem a Atlântida”, a Vila consegue o título do Grupo 2. Em 2001, sob a
presidência de Marcelo Muller, vem, finalmente, o título do Grupo de
Acesso, o que lhe concedeu o direito de figurar entre as grandes escolas
no ano seguinte. Tendo como temas as novelas, o samba levantou a Avenida
do Samba e garantiu-lhe o primeiro lugar naquele ano. Já figurando entre
as principais escolas do Carnaval paulista, a Vila Maria ganhou uma nova
quadra, a maior das escolas de samba de São Paulo, e ostentou um belo
sexto lugar na disputa do Carnaval em 2004.
Hoje, além de ser uma escola bem
estruturada no período carnavalesco, estando bem perto das maiores
campeãs paulistas, a Vila é também conhecida por seu trabalho social,
realizado durante todo o ano em sua quadra. Segundo a pesquisadora
Elisabete Zorzett, em reportagem publicada no jornal A Folha de São
Paulo, em fevereiro de 2004, a Vila Maria, é uma das escolas de
samba, que configura-se como a escola de samba que apresenta maior
organização em seu trabalho social. A escola mantém uma Escolinha de
Futebol, que reúne cerca de 200 meninos – que recebem, além do preparo
físico, também o acompanhamento psicológico.
Além disso, existem
serviços odontológicos, oferecidos em uma sala montada na própria quadra
da escola. Há também uma parceria com o SEBRAE e o SESI, que fornecem
cursos profissionalizantes na quadra, além de cursos de computação e
inglês. Para os que querem aprender a tocar instrumentos, há aulas de
cavaquinho, além de poderem ingressar na bateria da escola, comandada,
este ano, pelo Mestre Mi. E, para a terceira idade, aulas de ginástica e
alongamento. Há também a sala de Fisioterapia, recém-inaugurada.

Para
este ano de 2005, a escola receberá um subsídio do governo federal, já
que foi escolhida para participar de um projeto, e representar um dos
261 Pontos de Cultura espalhados pelo país (para tanto, são
vários os projetos culturais que acontecerão na escola: aulas de teatro,
cinema, estúdio de gravação, entre outros). Todos estes serviços são
oferecidos gratuitamente aos associados da Escola, durante o ano todo
(basta fazer sua inscrição – e, para tal, não existe nenhum
pré-requisito) – requer apenas vontade de participar..

Para o Carnaval do ano de 2005,
sob a presidência de Marcio Alves, a direção de Carnaval de Paulo Sérgio
Ferreira, o Serginho, e a batuta do carnavalesco Wagner Santos, a Vila
fez bonito com o tema “Sonho e realidade: o circo da vida”, no qual
apresentou uma comparação entre a vida e o circo, ou o quanto de nossas vidas é um circo. Este desfile rendeu-lhe a quarta colocação geral entre
as escolas do Grupo Especial, além de cinco troféus Nota 10 (premiação
concedida pelo jornal “O Diário de São Paulo” às melhores escolas do
Grupo Especial, em cada quesito, julgados por uma comissão formada por
profissionais e grandes conhecedores do samba e do carnaval) – melhor
evolução, melhor fantasia, melhor casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira,
melhor carnavalesco e melhor escola. Como disse nosso carnavalesco no
dia da entrega do prêmio, um reconhecimento merecido, após tantos anos
de trabalho e dedicação de toda uma gama de profissionais, colaboradores
e apaixonados em geral...