HISTÓRIA - Velha Guarda

Os pés e a alma da Unidos de Vila Maria

As velhas guardas das escolas de samba são verdadeiros compêndios vivos da tradição das agremiações e contam a história não só dos estandartes que representam, mas do próprio carnaval e do samba. É por isso que a Unidos de Vila Maria antecipa a comemoração dos 10 anos de sua Velha Guarda e dá início a uma série de entrevistas, bate-papos, rodas de prosa mesmo, com os principais personagens de sua história, festejando nossas origens através das raízes fortes dos nossos pioneiros.

Até serem assimiladas pelo repertório cultural brasileiro, as escolas de samba gastaram muita sola de sapato. Que o digam os membros da Velha Guarda da Unidos de Vila Maria, pioneiros do samba paulistano e responsáveis pela construção da história de uma das mais tradicionais escolas de samba do Brasil. Foram eles que, há mais de cinco décadas, encararam, de forma despretensiosa como só o samba consegue ser, o desafio de transformar em tradição um ritmo marcado pelo constante necessidade de superação. No samba, enquanto a harmonia é criada pelos instrumentos de corda e o ritmo é dado por surdos e pandeiros, a tradição é feita com sola de sapato.

 

Hoje com mais de 40 membros, a Velha Guarda da Unidos de Vila Maria foi oficialmente reunida em 2001, por iniciativa de dois dos mais antigos membros da escola, que a viram dar seus primeiros passos: Seu Levil Xavier Augusto, de 62 anos de idade, e Seu Ataliba Luiz, de 65. E, no comando daquelas primeiros passos, estava Seu Benedito Nascimento, o Dito Capira, hoje com 81 anos.

Junto aos amigos Mané Sabino, João Rico, Caxambu e Nenê, Seu Dito fundou, em 1950, a Unidos do Morro da Vila Maria, já que todos moravam na parte alta do bairro e festejavam o carnaval pelas ruas da região, gastando as solas de seus sapatos – “pintados a mão”, lembra Seu Dito – sambando da Vila Munhoz até a Vista Alegre.

Os poucos recursos de que a escola dispunha à época vinham todos de doações, arrecadadas entre os amigos e na comunidade local. Dona Elza Oliveira, de 70 anos, também da Velha Guarda e eleita imperatriz da Unidos de Vila Maria, conta que precisava passar por situações inusitadas para conseguir que os moradores colocassem dinheiro na taça que os então jovens e insistentes sambistas carregavam bairro adentro pedindo contribuições. “Certa vez, um dentista amigo nosso disse que ajudaria, mas só se eu comesse um sanduíche de pipoca! E não é que tinha um pipoqueiro bem ao lado?”, recorda, aos risos, enfatizando que nunca mais repetiu a receita.

Mas os sacrifícios não se limitavam às pegadinhas dos vizinhos. Seu Ataliba conta que precisou enfrentar os pais para, ainda adolescente, conseguir acompanhar a escola pelas ruas no carnaval. “Mas na maioria das vezes eu ia sem enfrentar mesmo, escondido”, confessa. A “rebeldia” se dava por conta do preconceito que o samba enfrentava numa sociedade que o via como sinônimo de malandragem.

Samba em tempo integral – Seu Dito, que, por diversos anos, fez de sua casa a sede da Unidos de Vila Maria, conta que o samba e sua vida pessoal sempre foram intimamente ligados – a ponto de um exercer forte influência no outro, nem sempre de forma positiva. Quando, em casa, montou uma pequena lavanderia, teve todas as suas roupas e as de seus clientes roubadas em meio a uma pequena confusão com as roupas usadas pelos membros da escola durante o carnaval. “Tive que pagar tudo, e foi difícil voltar ao ramo, já que ninguém mais queria confiar suas roupas à minha lavanderia”, diverte-se hoje, depois de superado o aperto financeiro causado pelo episódio.


Seu Levil


Seu Dito Caipira

Seu Ataliba

Além das dívidas, acumulava-se na casa de Seu Dito Caipira uma coleção de documentos, abandonados por seus titulares, que os entregavam ao então coordenador da escola de samba em garantia pelas roupas providenciadas para o carnaval. “Precisei me livrar daquilo tudo, ou a polícia, se encontrasse aquele monte de carteiras de identidade na minha casa, desconfiaria”, recorda.

Foi abrindo ala em meio ao preconceito, às dificuldades financeiras e ao sem-número de desafios que se colocavam no caminho da vontade daqueles moradores da Zona Norte de São Paulo que a Velha Guarda da Unidos de Vila Maria foi, aos poucos, conquistando seu espaço. Em 1976, com 600 componentes e Seu Dito como presidente, a escola construiu sua primeira quadra. Novos desafios se impuseram, e, duas décadas depois, nos anos 90, o hoje presidente de honra da Velha Guarda, Seu Vadinho, assumiu a direção da escola e a levou a obter bons resultados no carnaval paulistano, reerguendo-se das dificuldades e consolidando as bases das conquistas do novo milênio que se aproximava. Até que, em 2002, a Unidos de Vila Maria escreveu mais um importante capítulo de sua história ao desfilar, pela primeira vez, no Grupo Especial de São Paulo, com samba-enredo de outro membro da Velha Guarda, Carlos de Jesus. Desde 2004, a escola está entre as primeiras do carnaval paulistano – posição alcançada e sustentada pelos pés calejados de gente como Dito Caipira, Vadinho, Ataliba Luiz, Levil Xavier, Elza Oliveira, Carlos de Jesus e muitos outros.

Em breve, mais histórias da Velha Guarda da Unidos de Vila Maria.

 

 


Seu Vadinho

Seu Carlinhos

Dona Elza